
A noite traz os meus medos... mostra todo sentimento ressentido das pessoas.
Enquanto podemos observar um lindo céu estrelado e a lua - as vezes - tímida, podemos sentir o frio que chega nos arrepiando e fazendo pensarmos sobre a vida, sobre pessoas distantes, sobre sentimentos escondidos e até mesmo sentir falta de alguns momentos.
Aos meus 7 anos, quando eu olhava pela janela daquele imenso apartamento em frente a Lagoa Rodrigo de Freitas a noite, eu pudia sentir saudades da minha mãe que estava distante de mim por apenas 2 dias, eu pudia imaginar as famílias em casa. Algumas jantando, outras se preparando para ir dormir...
E então, teve aqueles momentos que eu não conseguia dormir. Quando eu ficava acordada por horas e horas. Enquanto a minha mãe não fosse dormir, eu não conseguia pegar no sono. Víamos filmes, ríamos de coisas engraçadas e quando sabíamos que ia faltar água, ficávamos até quase de manhã enchendo garrafas com a vovó. E, em uma dessas noites, eu achava que enquanto estivesse de noite, seria o fim de um dia. Não fazia sentido a mamãe me falar que à meia noite MESMO estando escuro, já era outro dia!
Naqueles momentos difíceis que eu pensava que alguns acontecimentos não iriam se repetir, quando eu pensava que - de alguma forma - a minha vida estava perdida diante tantos problemas na família, eu sentava do lado da mamãe, via ela chorando, me lamentava por não ter nada que eu pudesse fazer pra mudar tudo aquilo então eu chorava com ela. Dizia que tudo iria ficar bem novamente mas talvez falar coisas assim nunca é o bastante. Naquelas noites costumava fazer um frio...
E então ela me dizia: Tá com sono? A mamãe fica aqui, pode ir dormir, não precisa se preocupar.
Mas isso não entrava na minha cabeça, Naqueles olhos haviam medo do amanhã e a pior coisa que eu faria no mundo seria deixa-la ali sozinha, sem ao menos poder conversar comigo, mesmo sabendo que eu seria a última pessoa a saber sobre o que deveria ser feito.
Aquelas noites de viagens que o papai costumava sentir sono de madrugada quando estava dirigindo... pude notar a escuridão das estradas.
Uns lugares que as vezes parecem não existir!
Enquanto olharmos à frente, podemos ver a claridade do farol dianteiro do carro. Mas ao olhar pra trás - em uma estrada distante de toda e qualquer pessoa, recepção e sinal de seja lá o que for - era aquela escuridão que nem mesmo a lua podia amenizar. E quando parávamos em um hotel, daquela janela do quarto, via aquele mínimo fluxo de pessoas por ali... me fazia não entender como ainda existe pensões no meio do nada!
Os barulhos estranhos no telhado de casa, as péssimas notícias de grandes perdas daquela madrugada no Campo perto da casa da vovó ou até mesmo as noites longas e divertidas de carnaval.
Sentávamos na esquina da avenida e víamos os Bate-Bola, as crianças com suas fantasias, as mesmas pessoas passando por ali e nos cumprimentando, o medo dos tiros, as risadas sobre tombos, as fofocas sobre os outros, a hora de termos que ir dormir, o cheirinho de café em plena "Cinco horas da madrugada" e a mamãe levando o papai no portão pra ir trabalhar...
Essas noites... Todas essas noites me vêm na cabeça quando paro e sento na varanda de casa observando o silêncio da noite e a preciosidade que tem os mínimos sons que as vezes parecem sombrios ou até mesmo o vento frio que toca o nosso rosto.
Pude me recordar de tantos momentos da minha infância enquanto escrevia isso e é incrivelmente divino poder ter a satisfação e dizer que tudo tem o seu tempo.
Tudo acontece conforme tem de acontecer e eu jamais vivenciaria tais momentos novamente porque apesar de serem recordáveis - alguns deles - não seriam os mesmos, se vivenciados de novo.
Então, a minha memória vai ficando fraca e recordando de tais maneiras, gestos e fatos como um sonho que me falha ao dizer exatamente como foram tidos.
Um comentário:
lindo.
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